Dor de dente tem impacto social

Pesquisa mostra que mal faz população do Recife perder 3,5 mil dias de trabalho a cada seis meses.

Qualquer dor é incômoda e desagradável, mas poucas são tão desesperadoras quanto a dor de dente.

O seu impacto na qualidade de vida dos jovens recifenses e de suas famílias foi medido pelo professor da Faculdade de Odontologia (FOP/UPE), Paulo Sávio Góes. Sua pesquisa, que serviu como base para a tese de doutorado que defendeu na Universidade de Londres, mostra, entre outras coisas, que a cada seis meses a população recifense chega a perder, em média, 15 mil noites de sono por causa de dor de dente. Além disso, 3,5 mil dias de trabalho são comprometidos, no mesmo período, por conta do problema.

As projeções realizadas com os dados revelados indicam, ainda, que 26 mil estudantes que vivem na Capital tiveram ou terão dor de dente pelo menos uma vez. Desses, 14 mil foram vítimas do problema nos últimos seis meses e metade desse contingente deixou de realizar alguma atividade rotineira por causa da dor.

O estudo de Paulo Góes, que coordena as pesquisas do Centro de Dor Orofacial da FOP (único do Norte e Nordeste), levou em consideração a amostra de 1.052 alunos, na faixa etária de 14 e 15 anos, de trinta escolas públicas e privadas nas diferentes regiões do Recife. Ao todo, 750 famílias desses estudantes também responderam aos questionários aplicados. O resultado surpreendeu o pesquisador. Do total de adolescentes que participaram do estudo, 33% sentiram dor de dente nos últimos seis meses e 14% nas últimas quatro semanas.

O que mais chama a atenção do professor é a repercussão que as ocorrências de dores dentais têm na rotina dos jovens e de suas famílias. Pelo menos 14,5% do percentual que sentiu dor em seis meses deixou de fazer alguma atividade diária por conta do problema. Isso inclui brincadeiras com os amigos, prática de esportes e ida à escola. Desses, 8,6% deixaram efetivamente de ir à escola e 21,7% dos que conseguiram ir tiveram problemas para manter a concentração durante os estudos.

O estudante Victor José Cavalcanti, 14 anos, está entre os que chegaram a perder aula por causa da dor de dente.Ele tem um dente incluso que o obrigou a passar por uma cirurgia para a colocação de um parelho ortodôntico que vai possibilitar o tracionamento do dente. "O tratamento é longo e deve durar dois anos", adianta a odontóloga Christianne Lacet, do Centro de Aperfeiçoamento Odontológico de Pernambuco (Odonto-Cape), que acompanha o rapaz. "Problemas na articulação temporo-mandibular, erupção do terceiro molar e os fatores que exigem o tratamento de canal são as principais causas de dor de dente entre os mais jovens", diz a especialista. Em tratamento há quatro meses, Victor ainda não se livrou dos remédios para aliviar a dor. "Tomo analgésicos e antiinflamatórios", adianta.

Outro dado importante da pesquisa do professor Paulo Góes é que 4,6% dos pais dos adolescentes analisados perdem pelo menos um dia de trabalho a cada seis meses por conta da dor de dente dos filhos. E 9,3% deles gastam alguma quantia do orçamento doméstico na compra de medicamentos para tentar remediar o problema. "A dor de dente é uma epidemia negligenciada", diz o pesquisador. Segundo ele, o estudo também mostrou que o problema - geralmente conseqüência de cáries e doenças da gengiva - atinge mais a faixa menos favorecida da população. "Os estudantes mais pobres têm 1,6 mais dor de dente do que os de condição socioeconômica mais elevada", lembrou. A associação entre as doenças bucais e a condição de vida da população são, na opinião do professor, claramente confirmadas pela pesquisa.

Cáries

As doenças bucais não se fecham em sí, na opinião do especialista. Elas trazem grandes conseqüências para a população de modo geral e especificamente para os mais jovens. "O efeito da perda de dentes ou de defeitos na arcada para a auto-estima da pessoa, por exemplo, é visível", relata. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que em 72% dos casos a perda de dente nos adultos ocorre por conta das cáries. A meta da OMS é fazer com que as pessoas cheguem pelo menos até os 35 anos com todos os dentes na boca. Meta um tanto quanto difícil em paísespobres como o Brasil e com (ainda) insuficientes programas de prevenção de saúde bucal, que envolve escovação correta e periódica, uso de fio dental e ida ao dentista a cada seis meses.

Fonte: Jornal Diário de Pernambuco.


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